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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Porque sou Monárquico

Porque sou Monárquico ( in Causa Monárquica)



Não tenho palácios, nem títulos, nem anéis, nem pergaminhos. Entro na fila dos plebeus puros.

Se tivesse títulos, não os exibiria mas, também, não os enjeitaria.
Além disso, não sou contra ninguém. Do meu lado, como em todos os lados, há quem justifique aplausos e há quem mereça comiseração.

Um dia perguntaram à Amália se ela era monárquica ou republicana. E ela, com a intuição, a inteligência e a graça que a caracterizavam, respondeu; sou um bocadinho mais monárquica.
Por que republicanos somos todos, é, exactamente, esse bocadinho que me faz, também, ser monárquico. Republicanos no sentido de defensores da liberdade, da igualdade e da fraternidade, princípios que o cristianismo formulou, a revolução francesa adoptou como divisa e a carta dos direitos do homem propõe a todo o Universo, somos todos!

Essa ideia peregrina de absolutismos, de castas, de privilégios, de “sangue azul” que, ainda hoje, aqui ou ali aparece apensa à monarquia, nunca foi minha e creio que, a sério, já não é de ninguém.

Sou monárquico pelo bocadinho que a monarquia acrescenta à república.

É que os nossos reis nasceram com a Pátria e a Pátria com eles. No caso português, Pátria e Rei fazem parte do mesmo acontecimento fundador. Ambos são, por isso, inerência e factor da identidade portuguesa. Os “genes fundadores” pertencem a ambos.
Pátria e Monarquia arrancam dos mesmos alicerces e a seiva que lhes entrou por raízes comuns percorre-os e alimenta-os conferindo-lhes uma espécie de consanguinidade.
Os Reis são um permanente carimbo de Pátria.
Sei que foi com reis que fomos grandes.
Sei que um Rei não divide porque, sendo tão indiscutível com a Pátria, pertence a todos como ela.
Sei que o Rei é um símbolo com marca de perenidade.
E a simbologia, não sendo uma realidade substantiva é muito mais que uma fantasia alienante.
Os símbolos dão, alimentam e orientam convicções e por isso, devem ser permanentes. Os símbolos não se mudam.
Os hinos nacionais, as bandeiras das pátrias, não mudam ao sabor dos ventos e dos votos.
O Rei anda mais ligado à noção de Pátria, entidade indiscutível e perpétua, o Presidente da República anda mais perto da noção de Estado, entidade variável no conceito, na organização, no conteúdo.
Quantos Presidentes da República tivemos desde 1917?
Só depois do 25 de Abril foram seis! Alguém viu no Dr. Manuel de Arriaga ou no Dr. Teófilo Braga ou no Marechal Spínola ou no General Costa Gomes um símbolo de Portugal?
Quando muito um símbolo do poder.
Pode alguém comparar o que representa para Portugal D. Afonso Henriques ou D. Diniz ou D. João II ou D. Manuel I ou D. Pedro IV, com algum dos Presidentes da República que já tivemos? Nem poder natural, nem simbologia.
Podem ter cumprido o seu papel de forma inteligente, profícua, digna, mas são cidadãos sem vínculo natural e definitivo à Pátria, cidadãos que passaram e as Pátrias não passam.
O Rei, por ter um percurso histórico paralelo ao da Pátria identifica-se com ela e, por isso, dela recebe e a ela dá carácter.
Mais do que o representante, um Rei é um símbolo; um Presidente da República é, apenas, um representante temporário.
Enquanto que o Presidente da República emana de arranjos ocasionais e sempre fluidos de partidos, sempre de uma só parte dos portugueses, o Rei arranca de um tronco que nos contém e que foi a coluna vertebral da história.
Os presidentes da República andam, como os governos, ao gosto das votações e das políticas. Não permanecem. Um Rei sucede a outro numa linha de continuidade que o torna, mais coerentemente, um símbolo. Pode mudar a pessoa do Rei, mas a sucessão é natural, imediata, fácil, incontroversa, como uma lei da natureza. Muda a pessoa, mas permanece a ligação orgânica, genética às origens, a um sentimento, a uma educação, a uma relação quase familiar, aos sucessos de uma longa história em que foram protagonistas.
A monarquia portuguesa é uma instituição que vem do início e com a qual convivemos durante tantos séculos, tem alicerces cavados com a mesma fundura e que seguiram os mesmos sacrifícios dos que foram feitos para criar a Pátria e, por isso , identifica-se com ela.
O Rei é um órgão de uma soberania contínua. Agora, que a Pátria Portuguesa perdeu muita da sua independência, são necessários elementos que liguem o que fomos ao que queremos ser, num querer alimentado por valores eternos.
A ideia peregrina de que somos todos iguais e, por isso, todos temos o direito de poder aspirar a ser Presidente da República é pouco mais que infantil. A probabilidade de alguém via a ser Presidente da República seria, em Portugal, de 0.000 00001% se todos tivessem acesso a essa hipótese longínqua e demagógica. Mas não! De acordo com a nossa Constituição, só os nascidos em território nacional e maiores de 35 anos poderão candidatar-se e, além disso, qual foi o Presidente da República Portuguesa que não foi um político activo emanado das forças políticas organizadas, dos partidos? Quantos são os portugueses nessas condições? Onde é que está a igualdade de oportunidades?
Argumento ridículo.
Fala-se, também, do preço que a monarquia custaria ao País. Quantos Presidentes da República vivem, hoje, à custa do erário público? Vivem e Deus os conserve vivos e felizes durante muitos anos! Mas, vencimentos altos, carros, chauffeurs, staff, a multiplicar por quatro!
O outro argumento republicano recorrente é o de que a lei da hereditariedade pode oferecer-nos um mentecapto, um tarado, um energúmeno, um marcado pela natureza. Ninguém nega uma eventualidade possível. Tivemos, numa história de oito séculos, dois casos: D. Afonso VI e D. Maria I. Contudo, ambas as situações foram ultrapassadas com a normalidade que a história regista. E de quantos casos temos notícia de monstros que, por via não hereditária, chegaram à chefia dos Estados e dos Governos, alguns mesmo pela via do sufrágio universal. Não é um exercício teórico. Não é preciso recuar muito no tempo para encontrar dos mais desgraçados, dramáticos, tenebrosos exemplos de loucura que a história regista. Foi por esta via que os republicanos Ceaucescu, Karadsik e os mais emblemáticos chefes dos nossos dias, Hitler e Estaline, chegaram onde chegaram e fizeram o que fizeram!
Não! Esqueçam, também esse argumento.
Acresce que a implantação da grande maioria das repúblicas ficou ligada a actos de violência extrema: foi preciso matar e matou-se: assim morreram Luís XVI e Maria Antonieta, em França, D. Carlos e o Príncipe Real D. Luís Filipe em Portugal, toda a família de Nicolau II na Rússia. E eu sou contra a violência.
Há, ainda, outro motivo que também conta muito para mim. É que meu Pai comparava, muitas vezes, aquilo que viveu durante os últimos dezasseis anos de Monarquia, com o que passou durante os dezasseis primeiros da República. Eu ouvi-o sempre com a atenção de um filho e, além disso, não posso deixar de comparar, hoje, o que se passa nas monarquias do norte da Europa com o que se vive nas repúblicas do sul,
Finalmente, haverá quem conceba que o vínculo místico que liga um Povo ao sei Rei, ilustrado neste poema imortal de Fernando Pessoa possa, alguma vez estabelecer-se com um Presidente da República?

Aqui ao leme sou mais do que eu;
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo
Manda a vontade que me ata ao leme,
De El-Rei D. João II.

É por tudo isto que também sou um bocadinho mais monárquico

Serafim Guimarães, 5 de Outubro de 2010
Real Associação do Porto

Portugal a Pé - Num Algarve onde as estevas e as pedras vão substituindo as gentes

Portugal a Pé - Num Algarve onde as estevas e as pedras vão substituindo as gentes ( in www.cafeportugal.net )

Vamos encontrar Nuno Ferreira a Sul, no caminho entre Castro Marim e Alcoutim. À beira do Guadiana o jornalista recolhe histórias: de Reformas de miséria, de um rio onde já não se pesca, de territórios tornados desertos humanos. Um périplo com salto de fronteira incluído. Na vizinha Espanha um encontro com um Sancho Pança andaluz.

Nuno Ferreira* | terça-feira, 15 de Fevereiro de 2011

No início de Abril de 2008 a primavera rebentava em esplendor lá para as bandas de Odeleite, a esteva a desabrochar em manchas de flores brancas. A princípio, a caminhada desde Castro Marim fora feita, para meu desconforto, na IC 27.

Apesar da largura das bermas, tudo o que recordo de mais interessante foi a passagem de um ciclista em tronco nú e de uma carrinha amarela de venda de gelados que andava para cima e para baixo da IC. Sempre que me via outra vez, o homem dos gelados acenava e premia a buzina, ele na sua solidão de vendedor cruzando a minha de caminheiro.

Estava literalmente a morrer de fome quando larguei a IC e a toalha azul da Barragem de Odeleite à minha esquerda e meti pelo campo, por Alcaria, em direcção à Foz de Odeleite. Quis o destino que o único restaurante da terra com vista para o pachorrento Guadiana tivesse reaberto naquele dia. Pude almoçar com vista para o rio, para Espanha e para as pequenas hortas dos últimos idosos, entretidos entre as couves e uma paragem de autocarro vizinha do restaurante onde espantavam a passagem do tempo. «Sabe quanto ganho de reforma? Cem euros», contou-me um, menos envergonhado que os restantes, a fazerem que sim com a cabeça, a olharem para o lado, como quem diz: «É assim a vida do pobre». Por perto, encontrei um empreiteiro pouco animado que corroborou a história dos cem euros: «É verdade, esses velhotes vivem com reformas de miséria. E pode escrever que está a falar com o dono de uma empresa de construção falida».

Mais à frente, em Guerreiros do Rio, percebi que da pesca do Guadiana pouco mais restava do que o museu. Acabou tudo com a poluição e as restrições à pesca. «Há para aí quatro ou cinco mas andam sempre preocupados com a polícia marítima», contaram-me. Apesar do tom esverdeado e opaco das águas, acabei por celebrar o irromper súbito da primavera com um mergulho no velho «Odiana» a partir de um pequeno pontão que encontrei ali perto e «vigiado» à distância por uma algarvia de chapéu de palha e bata azulada.

Rumei mais tarde a Alcoutim para encontrar uma povoação e um concelho em luta desesperada contra o deserto humano. «Nós aqui lutamos desesperadamente pela sobrevivência», desabafava o médico e autarca de Alcoutim, Francisco Amaral, cuja freguesia de Pereiro, era então a que menos habitantes detinha por quilómetro quadrado em Portugal. «Só temos estevas e pedras, todos os anos morre gente. Pertencemos a uma região, a do Algarve, que tem concelhos ricos e é considerada rica pela União Europeia mas Alcoutim está entre os dez concelhos mais pobres», desabafava Francisco Amaral.

«Lá no Algarve...», comentava em tom de ironia, «só se fala em golfe mas aqui ainda o que nos vale é a cinegética. Esquecem-se que há clientes da caça com mais poder de compra que alguns golfistas».

Pena que as burocracias e as exigências legislativas não permitisse que a caça do concelho fosse consumida ali. «Para servir uma perdiz ou uma lebre local, tenho de a mandar inspeccionar por um veterinário e gastar milhares de contos num túnel de congelação. O investimento não justifica», comentava Rosária Baptista, do Restaurante de cozinha regional Alcatiã, cujos pratos incluem perdiz à algarvia, lebre com feijão branco, coelho bravo à caçador ou javali estufado: «Acabo por comprar às grandes empresas que importam da Nova Zelândia».

Descartados o turismo e a cinegética, Alcoutim toda ela é passado, quando as barcaças de minério das Minas de São Domingos desciam o Guadiana, o barbo e o muge - chamavam-lhe o 365 por ser comido todo o ano - povoavam o rio e o contrabando aliviava a fome. «Era um contrabando de miséria, uns quilos de tabaco, uns quilos de café. Ai mãe, não me fale disso tão pouco, a gente penava aí...» recordava Fernando, ex-contrabandista. «Às vezes, era para perder tudo».

Um dos últimos pescadores de Alcoutim, Emídio Costa Rica, asseverou-me que os dias de pesca já lá iam: «Pesquei desde pequeno, primeiro em Mértola, onde nasci e depois aqui. Pesquei 20 e tal anos. Agora, o rio está muito acabado devido à poluição. Já não pesco, já trabalhei muito...»

Ainda pedi a Emídio que me deixasse fotografá-lo junto da barcaça que mantinha junto ao rio mas foi um ápice enquanto desapareceu para dentro de casa e me deixou especado à frente da porta fechada. Decidi então pagar um euro ao barqueiro e rumar até à vizinha e fronteira Sanlúcar de Guadiana cansado de tanta melancolia. Acabei no Bar El Pozo onde uma vozearia e garrafas vazias de Cruzcampo invadiam o balcão enquanto um Sancho Pança andaluz observava a transmissão em directo de uma cerimónia no parlamento regional, em Sevilha e gritava: «Ladrones! Paco! Mas un pincho e un tinto de verano!»


(*) Nuno Ferreira nasceu em Aveiro em 1962. Licenciou-se em comunicação social na Universidade Nova de Lisboa. Foi colaborador permanente do semanário Expresso de 86 a 89, ano em que ingressou nos quadros do jornal Público (até 2006). Nos últimos 20 anos fez reportagens de cariz social. No Jornal Público manteve uma crónica satírica intitulada “Ficções do País Obscuro” e escreveu sobre música popular americana. Recebeu, entre outros, o Prémio de Jornalismo de Viagem do Clube de Jornalistas do Porto com o trabalho «Route 66 a Estrada da América» (1996). No ano seguinte recebeu o Prémio de Jornalismo de Viagem do Clube Português de Imprensa com o trabalho «A Índia de Comboio». Em 2007 publicou conjuntamente com Pedro Faria o livro «Ao Volante do Poder».

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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

«La educación no es un monopolio del Estado» / Maria Calvo Charro

A propósito da política "educativa" do actual Governo

«La educación no es un monopolio del Estado» / Maria Calvo Charro

Cortesía de María Calvo
MARIA CALVO CHARRO

«LA EDUCACIÓN NO ES UN MONOPOLIO DEL ESTADO»

Esta profesora de Derecho Administrativo es una de las mayores defensoras de la educación diferenciada en España.

Maria Calvo Charro es profesora de la Universidad Carlos III , presidenta de la Asociación europea de centros de educación diferenciada (EASSE) y madre de cuatro niños en edad escolar.

KINDSEIN: ¿Enseñanza diferenciada o mixta? ¿Una es mejor que otra?

MARIA CALVO CHARRO: Ambas son opciones legítimas. Lo importante es que exista la posibilidad de decidir con entera libertad. Se trata de debatir sobre qué es lo mejor para nuestros hijos, dar información a los padres y concederles el derecho de elegir libremente una de las opciones. Está en cuestión la propia libertad de enseñanza, que es uno de los derechos fundamentales más inherentes a la persona. Sólo desde la libertad se pueden forman personas libres.

KINDSEIN: ¿Puede basarse la defensa de la educación diferenciada sólo en las diferencias neurológicas innatas, o hay aspectos morales escondidos?

MARIA CALVO CHARRO: Además de las diferencias neurológicas, hay sin duda otras facetas que justifican sobradamente la existencia de este modelo escolar. Pero no se trata de causas relativas a la moral. Esto es absurdo. ¿Acaso es inmoral compartir aula con el sexo opuesto? Una niña o un niño pueden comportarse de manera inmoral también en un colegio "single-sex". Los que acusan a los colegios religiosos de separar por motivos "morales" no saben de qué están hablando. En estos colegios lo que se pretende es la formación íntegra de la persona. Es decir, además de un buen rendimiento académico, con la enseñanza diferenciada se busca que el alumno o la alumna se desarrollen plenamente como personas, partiendo de su masculinidad o feminidad, con autenticidad y sin distracciones.

Lograr esto es difícil cuando estás ante la presencia constante del sexo opuesto, especialmente en la adolescencia, etapa de la vida complejísima en la que se obsesionan por parecer bien y aparentar lo que a veces no son. La frustración y el agotamiento que supone estar continuamente pendiente de "gustar" perjudica un correcto desarrollo personal. Tener durante unas horas al día un espacio propio, libre de distracciones, en el que los que me rodean entienden perfectamente mis problemas específicos como chico o chica es un lujo muy beneficioso en la pubertad, pues favorece la configuración del carácter de los jóvenes de una manera más auténtica, sosegada y libre.

KINDSEIN: ¿Pero se puede ser ateo o de izquierdas y, al mismo tiempo, defensor de la educación diferenciada?

MARIA CALVO CHARRO: Estamos hablando de un modelo pedagógico que queda totalmente al margen de ideologías, creencias, moral o política. En España, la educación mixta es el modelo único y obligatorio en la enseñanza pública. Cuestionar las ventajas de los colegios y clases compartidas por niños y niñas lleva consigo el ser tachado de retrógrado, encasillado en algún movimiento religioso radical o considerado contrario a un principio democrático fuertemente asentado y aceptado por la generalidad. Reducir este modelo a una problemática religiosa o identificarlo con políticas conservadoras es ignorar por completo de qué estamos hablando y partir de unos prejuicios y dogmas que frenan el progreso y en consecuencia la libertad.

La enseñanza mixta no es un principio intangible del derecho escolar, es un instrumento para dos combates de fondo de nuestra sociedad: la igualdad de oportunidades y la transmisión de valores fundamentados en el respeto y la tolerancia. Lo importante es comprobar si está sirviendo para ello, y en caso negativo adoptar las medidas oportunas.

KINDSEIN: ¿Y si no está sirviendo para ello, crees que la enseñanza diferenciada podría solucionar algo?

MARIA CALVO CHARRO: Puede solucionar problemas graves de nuestro sistema educativo, como el fracaso escolar o la violencia en los colegios. Los beneficios que se desprenden de este modelo pedagógico son merecedores de una detallada atención por parte de padres, autoridades y docentes. No hay nada que impida su aplicación en el ámbito público. Es perfectamente legal y constitucional. Los padres deberían exigirla sin duda, pues tienen derecho a que sus hijos reciban lo mejor desde el punto de vista educativo.

KINDSEIN: ¿Crees que el modelo educativo debe depender del Estado, de la religión, del gobierno de turno?

MARIA CALVO CHARRO: Actualmente estamos viviendo una época en la que el Gobierno y la Administración pública están adoptando medidas que realmente cercenan la libertad amparándose en la defensa de la igualdad. Sobre todo en el ámbito educativo, donde la pluralidad y diversidad están siendo sustituidas por el igualitarismo. Se pretende que todos tengan el mismo nivel académico, perjudicando a los que destacan; que niños y niñas sean tratados de forma idéntica en las escuelas, impidiendo la optimización de las potencialidades peculiares que cada sexo encierra; que los idearios propios de las escuelas desaparezcan en el momento en que reciban algún tipo de subvención pública, asimilando así los colegios concertados a los públicos, etc. Frente a otros países desarrollados de nuestro entorno en los que se amplía la autonomía de los centros escolares para favorecer la pluralidad de opciones de los padres a la hora de elegir el centro docente adecuado para sus hijos, en España el ideal pedagógico parece ser la escuela única.

El derecho a la libertad de enseñanza radica precisamente en la libertad de escoger libremente el tipo o modelo de educación que se desee. Si la enseñanza diferenciada presenta ventajas demostradas, ¿por qué‚ reservarla únicamente a los hijos de padres que pueden pagar un centro privado?

KINDSEIN: En alguna ocasión has dicho que la educación diferenciada es precisamente una de las herramientas más importantes para la emancipación de la mujer. ¿Puedes explicarnos por qué?

MARIA CLAVO CHARRO: Es una realidad demostrada científicamente que las niñas maduran antes, física y cerebralmente, que sus compañeros varones. El desarrollo cognitivo del varón es más lento en ciertos tramos de edad en relación, sobre todo, con las habilidades lingüísticas. Y esto con total independencia de la cultura, nivel económico o raza. Los neurocientíficos han demostrado cómo la parte dedicada a las destrezas verbales de una niña de cuatro años equivale en madurez a la de un varón de seis. Por esto, en cuanto empiezan a hablar articulan mejor las palabras; crean frases más largas y complejas; hablan más y con mayor fluidez. En el colegio, escriben antes y con mayor perfección; adquieren un mayor vocabulario y leen con más facilidad que los niños de su misma edad

Luego, en la pubertad, psicólogos y pedagogos coinciden en que las féminas sientan antes la cabeza que los varones. Y así, con doce años, nuestras hijas son unas señoritas, mientras que nuestros hijos siguen siendo unos niños. En estas circunstancias, los chicos provocan un "bajón" en el nivel general de la clase que evidentemente perjudica a las chicas al "frenar" su ritmo para adaptarlo al de sus compañeros.

Asimismo, los chicos, especialmente a partir de secundaria, gozan de mayor facilidad para el pensamiento lógico-matemático o el razonamiento abstracto. La habilidad espacial es una característica típicamente masculina. Si queremos lograr que las niñas en la escuela adquieran gusto por las matemáticas y luego, en su madurez, accedan tanto como los hombres a carreras técnicas, precisan en secundaria de un apoyo especial en matemáticas, física y ciencias en general, y la aplicación práctica de un modelo docente adaptado a las peculiaridades de aprendizaje propias de su sexo.

En Alemania, el hecho de que las chicas no accedieran a carreras técnicas tanto como lo hacen los chicos o que aquellas en los colegios mixtos obtuvieran peores resultados en ciencias que sus compañeros varones, obligó a la Ministra de Educación de Nordrhein-Westfalen a reintroducir la enseñanza separada por sexos en física e informática. Heidi Simonis, diputada alemana socialista y conocida feminista, mantiene la necesidad de superar estereotipos. Suya es la frase: «Es necesario deshacerse definitivamente del prejuicio de que las chicas necesitan clases conjuntas con los chicos para no estar en desventaja en el trabajo profesional. Esto es totalmente falso».

KINDSEIN: ¿Los chicos están en inferioridad de condiciones en la escuela?

MARIA CALVO CHARRO: Los varones están en crisis desde el punto de vista educativo. Es un dato que aparece de forma reiterada en todas las estadísticas y que los responsables de la educación parecen ignorar totalmente: el fracaso escolar en nuestro país constituye una problemática principalmente masculina. El fenómeno afecta por igual a todas las enseñanzas y ciclos, y se concentra en la edad de 15 a 18 años. En todos los tipos de enseñanza, las chicas obtienen mejores resultados actualmente y la diferencia va en aumento.

Las chicas sacan mejores notas y acceden en mayor medida a la Universidad. En contra de lo que infundadamente piensa la mayoría de la sociedad, son las chicas las que están arrasando en los colegios. El chico tipo está un año y medio por detrás de la chica tipo en lo que se refiere a leer y escribir, está menos comprometido en el colegio, su comportamiento es peor y es más improbable que acabe realizando estudios universitarios. Lejos de aparecer tímidas y desmoralizadas, las chicas de hoy ensombrecen a los chicos. Consiguen mejores calificaciones. Las chicas se comprometen más académicamente, y es una realidad que se da en todo el territorio nacional, independientemente del color político de los diferentes gobiernos autonómicos y que trasciende nuestras fronteras.

KINDSEIN: ¿Y por qué no se traslada ese éxito académico al futuro, en la vida laboral, donde es el hombre el que sigue acaparando los puestos de más relevancia, mayor responsabilidad y más sueldo?

MARIA CALVO CHARRO: Es cierto que esos puestos están principalmente ocupados por hombres, Pero ese hecho no tiene nada que ver con la educación escolar, sino con la ausencia de medidas adecuadas de conciliación de la vida familiar y laboral para las mujeres. Las chicas protagonizan el éxito académico, tenemos una mayoría de mujeres licenciadas (hasta un 60%). Esta situación "ideal" para la mujer se resquebraja cuando tiene su primer hijo. Ante la imposibilidad material de compatibilizarlo todo, reducen su ambición profesional para poder atender debidamente a su hijo.

La realidad es que son las mujeres, y no los hombres, las que reducen sus aspiraciones profesionales para atender a los hijos. Esto es sin duda un acto de generosidad de las mujeres que debería ser debidamente valorado por la sociedad y por el Gobierno por medio de ayudas e incentivos. Como cualquier hombre, podemos llegar a ser médicos, ingenieros o artistas, pero solo nosotras podemos ser madres. La maternidad supone un cambio radical en la vida de cualquier mujer, un cambio en su propia esencia. De manera que la reincorporación al trabajo y la separación del hijo puede ser, incluso para las mujeres más independientes y profesionales, una experiencia realmente traumática.

KINDSEIN: En España, ¿a qué se achaca el fracaso escolar de los chicos?

MARIA CALVO CHARRO: En España, se ignora la existencia de este fuerte componente sexual en el fracaso escolar. Es un aspecto del que nunca se habla. Se barajan otras muchas variables, la edad, la raza, el nivel económico, pero la variable relativa al sexo se ha extirpado de nuestros datos porcentuales. En consecuencia, no hay ninguna actuación para darle solución. Mientras continuemos ignorándolo, seguiremos sin solucionar el fracaso escolar que sufren nuestros muchachos. Este asunto se suele despachar en la mayoría de las ocasiones con la idea simplista de que las chicas son más estudiosas, pero lo cierto es que detrás de los datos de fracaso escolar masculino se esconden otras realidades psicológicas y sociales.

KINDSEIN: ¿Cuáles?

MARIA CALVO CHARRO: El menor rendimiento escolar puede generar en ciertos casos —especialmente en la adolescencia— complejo de inferioridad, descenso de la autoestima, absentismo escolar, necesidad de evasión de la realidad por medio del consumo de drogas y alcohol. La estabilidad emocional de algunos niños se ve afectada por la incomprensión a la que se ven sometidos durante la convivencia escolar constante con el sexo opuesto. Diversas investigaciones al respecto están dando cifras preocupantes de depresiones en niños y jóvenes que suelen manifestarse con un bloqueo en los estudios que nadie se explica.

Nuestro sistema educativo está dando a los muchachos mucho menos de lo que merecen académicamente hablando. Es necesario que los poderes públicos reconozcan la existencia de unas diferencias sexuales en el aprendizaje que están siendo despreciadas y que provoca que los chicos se frustren, reduzcan su nivel de aspiraciones, piensen que estudiar es "cosa de chicas" y se hagan notar por medio de los excesos de violencia que llenan últimamente las páginas de nuestros periódicos.

KINDSEIN: ¿Conoces algún caso de familias que hayan optado por el "homeschooling" porque quieren una educación diferenciada no religiosa?

MARIA CALVO CHARRO: Algunos padres han adoptado esa iniciativa o bien han "creado" su propio colegio diferenciado. Son padres que se pueden permitir el lujo de adoptar estos modelos porque su situación profesional (en el caso del homeschooling) o económica (en el supuesto de creación de un colegio) son excepcionalmente buenas. Pero la pregunta es qué sucede con aquellas familias que no pueden asumir los costes de estas iniciativas. Se ha demostrado que la educación diferenciada tiene unos resultados excepcionales precisamente entre el alumnado perteneciente a minorías o de familias de renta baja. Ellos son los que más lo necesitan y sin embargo se les niega tal posibilidad.

KINDSEIN: ¿La educación diferenciada está contemplada en la Constitución española?

MARIA CALVO CHARRO: La educación diferenciada por sexo encaja en dos perspectivas del derecho a la educación previsto en el art. 27.1. Primero, en el derecho a la libre elección de centro por los padres; y segundo, en el derecho a crear centros docentes que, a su vez, supone otros dos derechos, el derecho a establecer en los estatutos del centro escolar un carácter propio y el derecho a la dirección del centro. Como lo ha interpretado de forma reiterada nuestro Tribunal Constitucional, el derecho a la educación en un marco de libertad de enseñanza incluye el derecho a elegir el centro docente que los padres consideren oportuno para la educación de sus hijos. Se trata además de un derecho reconocido de forma reiterada por diversos Tratados Internacionales ratificados por España.

El derecho a escoger el tipo de educación se refiere a que, antes que el Estado, la sociedad u otras entidades, son los padres quienes tienen el derecho -y también la obligación- de escoger lo relativo a la educación de sus hijos. En consecuencia, debería ofrecerse a los padres que lo quisieran la posibilidad, hoy negada por inexistencia de colegios públicos diferenciados, de elegir un colegio separado por sexo para sus hijos.

La educación no es un monopolio del Estado, ni de las Comunidades Autónomas. Es por el contrario un derecho fundamental, por lo que no se puede imponer ni un modelo ni otro, ni la educación privada, ni la pública, ni la mixta , ni la diferenciada, sino que se deben ofertar todos en igualdad de condiciones.

KINDSEIN: ¿Qué deberían escoger los padres que empiezan a buscar escuela, una diferenciada o una mixta?

MARIA CALVO CHARRO: Ambos modelos educativos tienen ventajas y desventajas. Todo depende de cada familia y sobre todo de cada alumno. Por ello, desde el punto de vista educativo, la Administración pública debería ofertar todos los modelos posibles. Luego que sean los padres, lo que ejerciendo su derecho a libre elección de centro docente, decidan qué es lo mejor para sus hijos. Lo importante es favorecer la libertad.

KINDSEIN: Has dicho en alguna ocasión que la educación diferenciada es «un sistema pedagógico moderno y progresista que atiende a la educación personalizada de los alumnos, sacando lo mejor de sí mismos». ¿No es una idealización de la separación por sexos?

MARIA CALVO CHARRO: Nunca basta solo con separarles. Es siempre esencial que la familia colabore, tanto en la escuela mixta como en la diferenciada. Los padres tienen que ejercer de padres y actuar al unísono con el colegio. En caso contrario, si los padres no "educan" también en casa, si no están compartiendo tiempo y conversación con sus hijos; si no les marcan límites; si no les ayudan a diferenciar lo que está bien de lo que está mal; si no les trasmiten -sobre todo con su ejemplo- el ejercicio de virtudes clásicas como el valor del esfuerzo personal, la importancia del autodominio, la prudencia, el respeto a los demás, la justicia... no hay colegio ni público, ni privado, ni mixto, ni diferenciado que logre conducir al alumno al éxito personal y por añadidura académico.

Es obvio que el secreto del éxito no está en separarles simplemente, sino en valorar las diferencias que existen en su forma de aprender, de socializarse, de jugar, de reaccionar ante idénticos estímulos, y aprovecharlas para optimizar las potencialidades propias de su sexo. Lo que se consigue aplicando unos métodos docentes adaptados a cada sexo que el profesor debe conocer previamente. ¿Idealista? A los resultados me remito. Las estadísticas de los países con mayor experiencia en este modelo avalan su eficacia.

KINDSEIN: ¿Qué es lo que se ha conseguido en estos casi cuarenta años de educación mixta?

MARIA CALVO CHARRO: Un ahorro de dinero público considerable. La enseñanza mixta es claramente más económica que la diferenciada, pues tanto el profesorado como las infraestructuras se comparten, pero también un nivel académico cada vez mas bajo, un fracaso escolar cada vez mayor y una falta de respeto entre los sexos y de los alumnos con el profesorado realmente alarmante. Pero la causa de estos problemas no está simplemente en el modelo mixto. Esto sería injusto. Se debe a otros muchos factores: la crisis de la familia; la falta de autoridad y disciplina; el desprestigio del esfuerzo personal; la consideración del niño como un ser al que hay que permitir todo y darle todo para que no se frustre o traumatice; la ausencia de límites; el relativismo... Las nuevas generaciones saben bastante menos que las anteriores. Esto debería preocuparnos seriamente. Los documentos PISA nos sitúan a la cola de Europa. Una mayor inversión de dinero público no es la solución.

KINDSEIN: ¿Crees que los padres de este país, en general, están interesados por la educación de sus hijos?

MARIA CALVO CHARRO: Los padres de España o de cualquier otro país quieren lo mejor para sus hijos. Pero primero necesitan conocer qué es lo mejor y tener posibilidad de elegirlo. En España no se dan estas dos condiciones previas. La generalidad de la población no sabe en qué consiste la educación diferenciada -la identifican erróneamente con la educación de los colegios de la etapa preconstitucional- y, por otra parte, aunque la deseen muchos, no pueden acceder a ella porque no hay colegios públicos. Si hubiera colegios públicos y se informara debidamente a los padres, muchos optarían por este modelo, como está sucediendo en países desarrollados de nuestro entorno.

KINDSEIN: ¿Como cuáles?

MARIA CALVO CHARRO: En Australia son ya más los colegios públicos diferenciados que mixtos. Esta situación ha venido dada por la elevadísima demanda de los padres. EEUU, Reino Unido o Alemania aumentan día a día el número de colegios públicos que ofertan este modelo ante la presión de las familias que lo solicitan cada vez más.

KINDSEIN: El Gobierno central dice que la educación diferenciada es antisocial y discriminatoria.

MARIA CALVO CHARRO: Quien diga que la educación diferenciada es antisocial y discriminatoria no sabe lo que dice. También los miembros del Gobierno actual hablan maravillas de la educación pública y sin embargo llevan a sus hijos a colegios privados. Es triste que, por culpa de dogmatismos y de prejuicios absurdos e inmovilistas, haya tantos alumnos que no pueden beneficiarse de un modelo que podría resolver su problema de fracaso escolar. Los que hacen tales afirmaciones ignoran que los Tribunales Superiores de Justicia de algunas Comunidades Autónomas han tenido ocasión de pronunciarse al respecto, con resoluciones judiciales que apoyan de forma incuestionable la legalidad de la separación escolar por sexos. Asimismo, recientemente el Tribunal Supremo ha dejado claro que constituye un modelo educativo tan legítimo como la educación mixta, reconocido por Tratados Internacionales, y cuya existencia favorece la libertad de opción de los padres. Finalmente, de conformidad con la doctrina del Tribunal Constitucional, la separación por sexos en las escuelas forma parte del carácter propio de aquellos centros privados y concertados que opten por este modelo.

KINDSEIN: ¿Irá siempre asociada en este país a una mentalidad conservadora?

MARIA CALVO CHARRO: No, a una mentalidad progresista capaz de asumir y aplicar los más recientes descubrimientos científicos al campo de la educación. Conservador es aquel, tanto de un partido como de otro, que no se atreve a cambiar, el inmovilista asentado en sus prejuicios y dogmas, el ignorante que se permite el lujo de opinar de algo que desconoce y cuya formación se limita a lo que ve en la televisión... Estamos hablando de un modelo apoyado por evidencias empíricas, por descubrimientos científicos de investigadores de reconocidísimo prestigio.Los gobiernos autonómicos, del color político que sean, tienen la última palabra: elegir entre la corrección política o la verdad científica por muy escandalosa que pueda ser en apariencia.

KINDSEIN: Gracias, doctora Calvo.


domingo, 13 de fevereiro de 2011

Monarquia Democrática: Não É Contradição, É Evolução

Monarquia Democrática: Não É Contradição, É Evolução

Democracia: uma palavra que deriva etimologicamente da junção dos termos "demos"--que significa povo--e "kratos", que significa poder. Assim sendo, democracia tem subjacente a noção de que o poder emana do povo. Tradicionalmente associada aos gregos, as suas origens são muito anteriores, havendo evidência que as civilizações pré-históricas já tinham laivos de democracia--a título de exemplo, a eleição dos chefes tribais por consenso dos membos das tribos. Com efeito, alguns destes povos chegaram a ter estruturas bastante desenvolvidas, com conselhos de anciãos, que votavam questões de importância maior e que funcionavam como órgão consultivo do chefe da tribo. Havia ainda uma espécie de legislação primitiva, que julgava actos tidos como contrários aos costumes da vida em sociedade.

Não obstante, é com a civilização grega que a democracia atinge o seu auge, sendo esta a época dos grandes pensadores. Sob pena de tornar esta nota extremamente longa, não me vou deter nos autores clássicos em detalhe. Direi apenas que Platão via a democracia como o regime da representatividade do povo, em oposição a sistemas como a monarquia (absolutista, como é óbvio, se bem que aqui o termo seja empregue no sentido lato), a oligarquia, a ditadura (no conceito clássico--viria a florescer em Roma), a aristocracia ou a timocracia (governo pelos detentores de propriedade).

Com o passar dos séculos, o poder do monarca viria a ser limitado, como forma de manter o equilíbrio na sociedade. Inicialmente, o contrapeso era feito pela nobreza guerreira: veja-se o caso da Segunda Guerra dos Barões de 1264 a 1267 em Inglaterra, em que a política fiscal do Rei Henrique III levou a uma revolta orquestrada pelo terratenente Simon de Montfort,6º Conde de Leicester, um dos pais da monarquia constitucional. Este fidalgo obrigou o Rei a voltar a jurar a Magna Carta, garantindo as liberdades fundamentais dos ingleses e mostrando que monarquia e democracia não são opostos, mas sim complementares. A maioria dos portugueses pode ter esquecido esta figura, cuja relevância para a noção de monarquia democrática é fulcral, mas nos EUA é possível ver a sua efígie representada em pedra na parede da Câmara dos Representantes.

Mais uns séculos volvidos, e as sociedades perceberam a necessidade da separação de poderes: legislativo, executivo e judicial. Condição sine qua none de qualquer democracia, o poder executivo deve reflectir a vontade do povo e, directa ou indirectamente, ser eleito. O poder judicial cabe aos homens de leis, que por direito zelam pelo cumprimento das leis estabelecidas. Quem legisla? O Parlamento. No cimo desta pirâmide temos o Chefe de Estado, detentor do poder moderador: mas quem deve ser o Chefe de Estado? A meu ver, deve ser alguém politicamente isento, pois a chefia do Estado é suprapartidário. O Chefe de Estado representa todos os portugueses: de esquerda ou de direita, ricos ou pobres, letrados ou analfabetos, influentes ou "cidadãos anónimos".

Pessoalmente não posso aceitar que o Chefe de Estado seja um antigo Chefe de Governo, como o foram todos os presidentes da república, pois estes estão dependentes dos que lhes pagaram as campanhas, das máquinas partidárias a que estiveram associados; representam apenas uma parcela da população. Creio que só um Rei constitucional poder representar todos os portugueses: assumindo o poder moderador, agindo enquanto conselheiro do Primeiro Ministro--o único conselheiro que não tem segundas intenções pois não aspira a nenhum cargo político, sendo inabalável na defesa dos interesses nacionais a longo prazo--o Rei é o Pai da Nação, cuja representatividade histórica é inegável.

O Rei não é o inimigo da democracia, é a garantia de que esta perdura, precisamente por não ser eleito pode servir o seu país , sem cair na tentação de se servir do seu país. A monarquia constitucional é a evolução natural da Nação, finda a monarquia absolutista. A república é a degeneração.

por Henrique Sousa de Azevedo


terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Governo português contra a defesa dos cristãos - Renascença

Governo português contra a defesa dos cristãos - Renascença




Quando ouvimos notícias sobre atentados contra cristãos, sofremos e, muitas vezes, revoltamo-nos ao saber que foram mortos cobardemente por ódio à fé, enquanto rezavam, como aconteceu recentemente no Iraque e no Egipto.

Entre nós – no Ocidente - não há perseguição aberta nem martírios frequentes, mas muitos cristãos sofrem certa pressão e discriminação: ao nível da opinião pública, nos programas de ensino impostos pelo Governo, na legislação sobre saúde, sobre a família e a vida humana... Enfim, cada um de nós é capaz de enunciar já hoje um ou outro caso.

Às claras, ou veladamente, a violência e intolerância contra os cristãos é sempre condenável. Claro! Foi o que também achou o ministro dos Negócios Estrangeiros de Itália ao propor, esta semana, à UE, uma declaração conjunta para condenar a perseguição religiosa anti-cristã.

A proposta italiana teve o apoio da grande maioria dos ministros dos Negócios Estrangeiros da União, mas foi bloqueada por cinco países: Portugal, Espanha, Luxemburgo, Irlanda e Chipre. E, por isso, não se chegou a acordo.

Ficamos, pois, a saber que o Governo de Portugal é líder na Europa contra a defesa dos cristãos.






quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Mário Crespo entrevista SAR o Duque de Bragança (3/3)

Mário Crespo entrevista SAR o Duque de Bragança (2/3)

Mário Crespo entrevista SAR o Duque de Bragança (1/3)

Mensagem 2010 de S.A.R. Dom Duarte, Duque de Bragança

Homilia do Padre Gonçalo na Missa de Sufrágio pelas Almas de El Rei Dom Carlos e do Principe Luiz Filipe

Homilia do Padre Gonçalo na Missa de Sufrágio pelas Almas de El Rei Dom Carlos e do Principe Luiz Filipe

Os que fizeram o favor de me ouvir «in loco» (atenção, a expressão latina quer dizer "no lugar" e, portanto, não tem nada que ver com loucura...) não estranhem quando notarem que há partes do texto que não foram referidas oralmente porque, temendo estar a cansar excessivamente os muito numerosos assistentes e tendo também em conta o adiantado da hora, saltei propositadamente alguns parágrafos que, contudo, agora seguem.

Muito embora não seja um texto político, mas pastoral, como convém a uma homilia, recomenda-se prudência na sua leitura a todos os eventuais fãs do Dr. Afonso Costa que, por azar deles e meu, recebam esta mensagem.

Grato pela vossa atenção, recomendo-me às vossas orações.

P. Gonçalo

AFEIÇÃO DE MÃE

Homilia na Missa de sufrágio por El-Rei D. Carlos I e o Príncipe Real

(Lisboa, Igreja de Nossa Senhora da Encarnação, 1-II-2011)

1. Introdução. O Evangelho desta terça-feira da quarta semana do tempo comum recorda, em simultâneo, dois milagres de Nosso Senhor: a cura da mulher que havia doze anos padecia um fluxo de sangue e a ressurreição da filha de Jairo, um dos chefes da sinagoga (cfr. Mc 5, 21-43).

Ambos nos falam do extraordinário poder que, pela fé, opera milagres, num convite àquela conversão que, mais do que uma momentânea prece num momento de particular aflição, se deve traduzir no habitual abandono das nossas vidas nas paternais mãos do nosso providente Criador. O sentido da nossa vida é o de uma incessante peregrinação para a casa do Pai e o instante da nossa morte mais não é do que o fim desse breve período terreno da nossa existência e o começo da sua etapa definitiva, na eternidade de Deus. Por isso, todos os instantes da nossa vida deveriam reflectir esse sentido de transcendência, sem o qual a existência humana resultaria um trágico absurdo.

2. Cumprimentos. Todos os anos, no dia primeiro de Fevereiro, a Casa Real manda celebrar uma Santa Missa de sufrágio por Sua Majestade Fidelíssima El-Rei D. Carlos I, e por Sua Alteza Real o Príncipe Dom Luís Filipe, que em igual data do ano de 1908 tombaram, por Deus e pela Pátria, no Terreiro do Paço.

Quis a Providência que, tendo no ano passado assegurado este serviço litúrgico a pedido do Presidente da Real Associação de Lisboa, por impedimento do Senhor Cónego João Seabra, de novo o faça este ano, graças ao mesmo amável convite, que muito me honra. Por isso, cumpre-me agradecer a fidalga hospitalidade do meu Pároco e titular desta belíssima Igreja de Nossa Senhora da Encarnação, bem como oportunidade que se me dá de me associar a tão justa homenagem às vítimas do regicídio. É para mim especialmente grata a ocasião que assim se me oferece de servir a Família Real, que cumprimento nas reais pessoas do Senhor Dom Duarte e da Senhora Dona Isabel, Duques de Bragança, pedindo-lhes que aceitem os meus respeitos pela Instituição que encarnam, na comunhão dos ideais cristãos que professam com exemplar fidelidade. Peço ainda que contem sempre com o modesto óbolo da minha oração, que os não esquece nunca, nem a seus filhos, Suas Altezas o Príncipe da Beira e os Infantes de Portugal.

Consta-me também a presença de representantes oficiais das Reais Ordens dinásticas de Santa Isabel e de Nossa Senhora da Conceição da Vila Viçosa, bem como da Ordem Soberana e Militar de São João de Jerusalém, dita de Malta, e da Ordem de Cavalaria do Santo Sepulcro de Jerusalém: a todos saúdo, bem como aos presidentes de outras instituições que também se quiseram associar a esta efeméride, nomeadamente a Causa Real, o Instituto da Nobreza Portuguesa, a Associação da Nobreza Histórica de Portugal e a Juventude Monárquica. Envolvo na mesma bênção todos os numerosos fiéis que devotamente se propõem igualmente participar nesta Eucaristia e quantos, embora fisicamente ausentes, nos acompanham com as suas orações.

3. O sentido da celebração. Importa recordar que esta comemoração, mais do que um acto de afirmação monárquica ou de fervor patriótico, assume-se essencialmente como acção litúrgica, ou seja, como um acto de adoração, de súplica, de acção de graças e de desagravo a Deus Uno e Trino. Por isso, se a comum nacionalidade e a idêntica filiação monárquica une todos os fiéis hoje aqui reunidos, necessário é que, por maioria de razão, todos comunguem a mesma fé, sem a qual não faria sentido esta evocação religiosa.

Uma tal atitude cristã deve-se traduzir não apenas pela fervorosa oração por El-Rei D. Carlos e pelo Príncipe Real, mas também pelos seus assassinos, uma vez que é timbre dos discípulos de Cristo, em contraposição aos seguidores de outras religiões, o mandamento novo da caridade (cfr. Jo 13, 34-35), que obriga ao amor dos inimigos (cfr. Mt 5, 43-48). E, porque a Igreja é, pela sua própria natureza, católica, ou seja, universal, esta nossa prece não se limita apenas àqueles protagonistas da tragédia que antecedeu e propiciou, há mais de um século, a implantação da república portuguesa, antes abarca todos os heróis da nossa Pátria e da nossa fé, e também todas as vítimas inocentes da intolerância e do fanatismo, bem como todos os criminosos e homicidas, na esperança de que a misericórdia divina os perdoe e acolha, com a mesma espantosa magnanimidade que experimentou, no momento da sua morte, o bom ladrão (cfr. Lc 23, 39-43).

4. A dimensão íntima de um drama nacional. Já depois de curada a hemorroíssa que, com a sua extemporânea intervenção, atrasou Nosso Senhor no seu caminho para casa de Jairo, «vieram dizer da casa do chefe da sinagoga: “A tua filha morreu. Porque estás ainda a importunar o Mestre?” Mas Jesus, ouvindo estas palavras, disse ao chefe da sinagoga: “ Não temas; basta que tenhas fé”» (Mc 5, 35).

Impressiona a frieza como é comunicada ao desconsolado pai a morte da sua filha de doze anos: os próprios amigos, que lhe transmitem a dolorosa notícia do óbito, censuram a sua insistência junto do Mestre, única esperança para o seu amargurado coração paterno. O que para alguns mais não é do que um acontecimento brutal é, para os seus mais próximos familiares, causa de um imenso desgosto. Neste sentido, a dimensão nacional ou política do regicídio, de tão funestas consequências para a História de Portugal, não deve levar a esquecer a dimensão mais propriamente familiar do terrível drama que, com aquele duplo crime, se abateu sobre a nossa Família Real.

Numas Notas absolutamente íntimas sobre aquele trágico acontecimento, El-Rei D. Manuel II conta que sua augusta Mãe, logo que saiu da carruagem em que jazia El-Rei D. Carlos e agonizava o Príncipe D. Luís Filipe, gritou «com uma voz que fazia medo: “Mataram El-Rei! Mataram o meu Filho!”» (D. Manuel II, Notas absolutamente íntimas, 21-5-1918, cit. in Miguel Sanches de Baena, Diário de D. Manuel e estudo sobre o regicídio, Alfa, Lisboa 1990, pág. 51). Não há palavras que possam traduzir a dor daquele duplo luto de quem acabara de presenciar, indefesa, ao assassínio do marido e do seu filho primogénito. Ferida por uma tão grande mágoa, a Rainha subitamente desfaleceu, caindo no chão, mas logo se ergueu, «quase envergonhada por ter caído» (Idem, págs. 52-53), segundo o relato do seu filho sobrevivente, então já, de facto, Rei de Portugal, que depois afirma: «Quem dera a muitos homens terem a décima parte da coragem que minha Mãe tem. Tem sido uma verdadeira mártir!» (Idem, pág. 53). Entretanto, chegou a Rainha Dona Maria Pia que, dirigindo-se à Senhora Dona Amélia, disse: «Mataram o meu filho!». A que a Rainha respondeu: «E o meu também!» (Idem, pág. 52).

Talvez aos políticos interesse, sobretudo, a situação política decorrente do regicídio, no complexo estudo das suas causas e efeitos nacionais e internacionais. Talvez os historiadores se ocupem do facto, no âmbito mais alargado da evolução colectiva deste povo que, não obstante os seus momentos gloriosos, conhece também páginas manchadas pelo sangue dos mártires da Pátria, como certamente foram El-Rei D. Carlos e o Príncipe Real. Talvez os juristas se interessem sobretudo pela decorrente questão penal e ajuízem a responsabilidade criminal dos executores do acto e das associações secretas que agiram por seu intermédio. Talvez o público se satisfaça com a notícia alarmista, o escândalo mediático, o relato mais impressivo e chocante do tão sensacional acontecimento mas, uma vez ultrapassada a sua palpitante actualidade, logo cai no ingrato esquecimento da grei, que arrasta consigo, como foi o caso, a total impunidade dos seus responsáveis.

Se o regicídio foi uma tragédia nacional, foi também e principalmente um drama familiar. Se nenhum bom português pode ser alheio a esta convulsão política e social, nenhum cristão pode ficar indiferente ante a tragédia que o regicídio representou para a Família Real que, por ser a primeira da nação e a que melhor encarna a nossa memória e identidade, é também, de algum modo, a família de todos nós.

5. Deus é família. Segundo São Marcos, «depois de Jesus ter atravessado de barco para a outra margem do lago» (Mc 5, 21), chegou «um dos chefes da sinagoga, chamado Jairo. Ao ver Jesus, caiu a seus pés e suplicou-Lhe com insistência: “A minha filha está a morrer. Vem impor-Lhe as mãos, para que se salve e viva”» (Mc 5, 22-23).

Era chefe da sinagoga, mas não se vale da sua autoridade, nem do correspondente prestígio, para alcançar a graça da cura, que impetra humildemente na sua qualidade de pai, para a filha moribunda. Esquece-se da compostura que porventura seria de esperar de alguém com a sua posição social e cai aos pés de Jesus, num acto de tão profundo abatimento que Nosso Senhor «foi com ele» (Mc 5, 24), como que compelido pelo seu amor paterno e fazendo seu o sofrimento de Jairo.

Muito antes da encarnação do Verbo, Deus já se tinha revelado ao seu povo, sobretudo através dos patriarcas e dos profetas. Os judeus, ao contrário dos outros povos, conheciam Yahvé e acreditavam na sua existência e nos seus atributos. Mas a revelação de Deus não ia além da percepção da sua infinita majestade, da omnipotência da sua realeza, da sua condição única e singular de Senhor de todo o universo. Será preciso que se cumpra, em Nosso Senhor Jesus Cristo, «a plenitude dos tempos» (Gal 4, 4), para que o Deus uno três vezes santo se revele na sua intimidade, ou seja, como Pai, Filho e Espírito Santo. A referência a uma paternidade e filiação no seio da própria vida trinitária, bem como a revelação do amor, como essência da natureza que Deus é (cfr 1Jo 4, 8), expressam uma realidade surpreendente: Deus, que é amor na unidade da sua essência, é família na pluralidade das suas Pessoas.

Há ainda quem pense que Deus é uma espécie de Gigante Egoísta (cfr Oscar Wilde, O Gigante Egoísta, in Obra completa, Ed. José Aguilar Ltda., Rio de Janeiro 1961, págs. 244-247), que observa, impávido e sereno, as alegrias e os sofrimentos das criaturas, como se mais não fossem do que uma sua sádica distracção. Mas a fé cristã ensina, pelo contrário, que Deus é Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo e nosso, pela infusão do amor do Espírito Santo nos nossos corações. Por isso, não somos apenas criaturas feitas à imagem e semelhança de Deus, mas seus filhos caríssimos, na medida em que, pela graça, nos foi dada a participar a natureza divina (cfr 2Pd 1, 4).

Ciente desta tão gozosa e deslumbrante realidade, São Paulo cantava a grandeza desta nossa filiação divina: «tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória que se manifestará em nós. Pelo que este mundo espera ansiosamente a manifestação dos filhos de Deus. De facto, a criação foi sujeita à vaidade […] com a esperança de que também a própria criação será livre da sujeição à corrupção, para participar da liberdade gloriosa dos filhos de Deus» (Rm 8, 18-21). E São Pedro concluía que os cristãos, por obra e graça do Baptismo, são «uma geração escolhida, um sacerdócio real, uma nação santa, um povo adquirido por Deus» (1Pd 2, 9).

6. Deus, família e monarquia. Se Deus é família e as instituições do Estado devem de algum modo reproduzir, na sociedade civil, a estrutura dessa relação das criaturas com o seu Criador, não será descabido, do ponto de vista teológico, concluir a conveniência de uma chefia do Estado que, como Deus, seja familiar. Neste sentido, sem querer dogmatizar em temas políticos opináveis, nem excluir outras formas legítimas de organização social, pode-se afirmar que a monarquia, na medida em que outorga a chefia e representação do Estado a uma família, mais do que a um indivíduo, é a forma política que mais se aproxima da realidade divina revelada no mistério da Santíssima Trindade e a que melhor corresponde e mais convém à preservação da célula fundamental da sociedade. Se a família natural, nas relações que estabelece entre pais e filhos, é imagem e semelhança da filiação divina, pela participação que aos pais cabe da própria paternidade de Deus (cfr Ef 3, 15), então um sistema de chefia do Estado que respeite e consagre esta realidade familiar é o que mais naturalmente se adequa à natureza social do ser humano e melhor expressa, na autoridade do poder público soberano, a imagem familiar de Deus.

Neste sentido, talvez não seja temerário afirmar que a razão teológica da instituição monárquica se encontra na revelação trinitária do mistério de Deus, ou seja, na sua estrutura familiar. Para além deste fundamento transcendente ou sobrenatural, que eventualmente não colhe para quem não professa a religião cristã, pode-se também afirmar que a instituição monárquica, pela sua natureza profundamente familiar, tem um carácter essencialmente natural, porque institui, na cúpula da organização política, o modelo familiar, que é a base antropológica de qualquer organização social.

Esta conaturalidade do regime monárquico, devida à sua estrutura essencialmente familiar, manifesta-se de muito modos, mas sobretudo na proximidade da nação em relação à Família Real. Não em vão, o Chefe da Casa Real francesa e a sua geração recebe um significativo nome: a Família de França. É assim porque os Reis e os seus descendentes são, de algum modo, a expressão mais representativa da soberania, não apenas na sua actualidade, mas também na sua origem e evolução. Se a pátria é, etimologicamente, a «terra dos pais», não pode ser simbolizada senão através da família que estabelece a relação histórica com os fundadores da nacionalidade, até porque um representante eleito por sufrágio é sempre um homem de facção, que tende a beneficiar os seus próprios eleitores contra os restantes cidadãos, não se identificando nunca, por conseguinte, com todos os seus compatriotas.

Com efeito, a concepção republicana da chefia do Estado é individualista, porque conta única e exclusivamente com a pessoa eleita e investida nessas funções, enquanto a concepção monárquica é familiar, porque não assenta apenas na pessoa do soberano, mas em toda a sua família, que participa nas suas funções e, por isso, está também ao serviço da comunidade nacional.

7. A responsabilidade moral da Família Real. Se a participação, pela Família Real, das funções de chefia e representação do Estado, a fazem credora de uma especial consideração política e social, também acrescem a sua responsabilidade social. Aos Reis e Príncipes deve-se-lhes prestar a honra que lhes é devida, mas na condição de que, pelo seu próprio comportamento, se afirmem dignos dessa homenagem. Se, como se costuma dizer, à mulher de César não lhe basta ser honesta, porque deve também parecê-lo, com mais razão se pode e deve exigir aos membros de uma Família Real aquela exemplaridade ética que é razão da sua proeminência. A distinção entre a vida pública e privada não faz sentido quando referida às pessoas reais, porque essa sua condição significa que toda a sua existência deve estar ao serviço da nação e, portanto, vivida de forma moralmente exemplar.

A este propósito, é significativa a actuação de João Baptista, que publicamente reprovou ao Rei Herodes a sua vida dissoluta (cf. Mt 14, 1-12). Fê-lo, certamente, porque o seu comportamento era escandaloso para qualquer judeu, mas também porque, enquanto monarca, estava obrigado a ser uma referência para o seu povo e, por isso, o seu pecado era maior. É verdade que a sua falta dizia respeito à sua intimidade, mas um rei digno desse nome não se pode permitir baixezas contrária à alteza da sua condição, a qual implica uma constante virtude, que seja lição e orgulho para todos os seus súbditos.

8. Homenagem às Rainhas de Portugal. Ainda a este propósito, permita-se-me uma breve alusão ao papel fundamental desempenhado pelas Rainhas de Portugal, sobretudo como exemplo de fidelidade matrimonial e de dedicação maternal. Outros exaltarão as suas virtudes patrióticas, bem como as suas obras de benemerência, mas não é menos digna de menção a sua tantas vezes heróica dedicação à família, quer na fidelidade aos seus compromissos matrimoniais, tanto mais meritória quanto nem sempre os casamentos régios se realizavam por iniciativa dos nubentes, quer ainda na instrução, com o seu exemplo e a sua palavra, de ínclitas gerações de Infantes de Portugal.

Embora não atingidas pelos disparos dos regicidas, as Rainhas Dona Maria Pia e Dona Amélia foram, ainda que incólumes, umas das principais vítimas do regicídio. Ambas Rainhas sofreram, respectivamente, a morte de filhos seus, tendo a Senhora Dona Maria Pia perdido também um seu neto e a Senhora Dona Amélia, seu augusto marido.

Dois significativos gestos atestam o heroísmo maternal destas duas últimas Rainhas, que o regicídio irmanou na mesma saudade e dor.

Quando, a 2 de Outubro de 1873, a Senhora Dona Maria Pia passeava, no sítio do Mexilhoeiro, com os seus filhos, uma onda arrebatou o Príncipe Dom Carlos, então com dez anos, e o seu irmão, o Infante Dom Afonso. Sem se deixar intimidar pela fúria da maré, a Rainha atirou-se de imediato à água, para salvar os seus filhos, pondo também em risco a sua própria vida. Os três vieram a ser salvos pelo ajudante do faroleiro da Guia, que foi por este motivo condecorado com a Torre-e-Espada, tendo sido também atribuída uma medalha à Senhora Dona Maria Pia. A coragem deste seu gesto foi a razão que levou à projecção de um monumento em seu louvor, muito significativamente denominado Afeição de Mãe. A estátua não chegou a ser erguida, mas o seu modelo, em barro, ainda se conserva no Palácio Real da Ajuda (Rui Ramos, D. Carlos, Círculo de Leitores, Rio de Mouro 2006, pág. 32).

Por sua vez, a atitude da Senhora Dona Amélia, por ocasião do regicídio, não poderia ter sido mais valerosa. Ante o estrondo dos disparos, que irromperam, segundo o relato de D. Manuel II, «como numa batida às feras», «uma perfeita fuzilada» (D. Manuel II, Notas absolutamente íntimas, 21-5-1918, cit., pág. 49), a Rainha não só não se amedrontou – como a grande maioria dos presentes, que, apavorados, fugiram à desfilada – como se pôs de pé na carruagem, dando assim o corpo ao manifesto. Quereria, decerto, defender os seus, nem que fosse a troco da sua própria vida. Ficou para a História a sua reacção patética, bramindo o ramo de flores que, no cais, momentos antes, lhe tinha sido oferecido por uma sua afilhada, ao mesmo tempo que gritava: «Infames, infames!» (Rui Ramos, D. Carlos, Círculo de Leitores, Rio de Mouro 2006, pág. 316). A infâmia dos que traiçoeiramente abateram, pelas costas, El-Rei, foi o pedestal de que a Providência se serviu para elevar este imperecível monumento ao heroísmo desta Rainha de Portugal, esposa e mãe mártir (D. Manuel II, Notas absolutamente íntimas, 21-5-1918, cit., pág. 53).

No esteio das suas augustas antecessoras, e em especial destas duas últimas Rainhas de Portugal, a Senhora Dona Isabel tem sido um extraordinário exemplo de virtude cristã, prestando deste jeito um inestimável serviço à Instituição e a Portugal. Bem haja, Alteza Real, por este vosso eficacíssimo apostolado que, não obstante a sua silenciosa descrição, é sonoro pregão dos ideais cristãos! Aceitai a nossa homenagem pela vossa fidelidade aos valores espirituais que, desde a sua fundação, nortearam este Reino que é de Maria e que é vosso e que, juntamente com o Senhor Dom Duarte, tão dignamente representais. Queira Deus que todos quanto se revêem neste mesmo ideário se comprometam, de acordo com o exemplo de Vossas Altezas Reais, a honrar os seus compromissos cristãos e familiares, na certeza de que, deste modo, não só prestam um valioso serviço à pátria e à Casa Real, como contribuem principalmente para a construção do Reino de Deus.

9. Cumprir Portugal. Uma curiosa coincidência numérica une os dois episódios evangélicos agora considerados: não só a hemorroíssa padecia há doze anos a doença de que foi pelo Senhor milagrosamente curada (cfr Mc 5, 25), como doze eram também os anos da jovem filha de Jairo, que Jesus ressuscitou (cfr Mc 5, 42). É provável que esse tempo signifique, no primeiro caso, uma doença tão persistente que seria, em termos humanos, incurável. Em relação à adolescente, os seus breves doze anos reforçam a tristeza provocada pelo seu inesperado óbito, porventura mais tolerável se a idade fosse provecta.

Não exagerarei se comparar o nosso país àquela doente «que tinha um fluxo de sangue havia doze anos, que sofrera muito nas mãos de vários médicos e gastara todos os seus bens, sem ter obtido qualquer resultado, antes piorava cada vez mais» (Mc 5, 25-26). O nosso Estado padece uma imparável hemorragia de mundos e fundos, que conduziu o nosso país a uma quase inimaginável situação de endividamento e de pobreza. Os recorrentes sacrifícios que são pedidos à população, não só não produzem frutos de um maior bem-estar social, como parecem contribuir para o agravamento diário da já agonizante situação. Os muitos «médicos» que se abeiraram da Pátria moribunda, sempre com juras de prodigiosas receitas, em nada contribuíram para a desejada e prometida cura e, com os seus generosos honorários, agravaram ainda mais o seu empobrecimento.

Mesmo as instituições que pareciam o mais sólido fundamento da sociedade – como a justiça, a saúde e a educação – soçobram nas mãos de mercenários aventureiros que, esquecido o ideal do bem comum e o princípio de serviço que deveria inspirar todos os governantes e funcionários do Estado, oferecem hoje um deplorável espectáculo de incrível amadorismo e da mais aflitiva e impune irresponsabilidade.

Sem saúde, sem receitas, sem recursos que bastem para a nossa digna sustentação, sem hipóteses de saldar a gigantesca dívida pública e sem políticos capazes de gizarem uma solução nacional, só nos cabem duas possíveis reacções: o desespero dos incrédulos, ou a esperança da fé.

Quando a Polónia cristã padecia o jugo comunista, um prelado, tendo em conta que o seu país se encontrava cercado, em todas as suas fronteiras, por nações satélites da então poderosa União Soviética, assim se dirigiu aos fiéis:

- Já que não nos podemos voltar para norte, nem para sul, para oeste, nem para leste, dirijamo-nos para a única direcção que nos resta: para cima, para o alto, para o Céu!

Quando Jesus disse que a filha de Jairo não estava morta, mas apenas adormecida, «riram-se d’Ele» (Mc 5, 40). Adivinho esse mesmo esgar trocista nos que agora pensam que Portugal é morto e enterrado e, por isso, descrêem esta palavra final de alento. Que seja. Mas peço o arrojo da esperança aos filhos desta bendita terra de Santa Maria, para que, como os nossos antepassados em 1385 e em 1640, também agora perseverem na ousadia da fé. Elevai pois, de novo, o estandarte das quinas e fazei vida da vossa vida a oração do poeta: «Senhor, falta cumprir-se Portugal!» (Fernando Pessoa, O Infante, último verso, in Mensagem, Edição clonada do original da Biblioteca Nacional, Guimarães Editores, 2009, pág. 61).

P. Gonçalo Portocarrero de Almada